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quarta-feira, abril 28, 2010

Tendo em conta que...

...muitas das coisas que nós ouvimos diariamente ou pelo menos com o mesmo tipo de gosto são, muitas vezes, de artistas de pouca expressão mediática, ou de nichos reduzidos, cabe-nos também a nós fazer uma divulgação. Quando os artistas são portugueses, essa obrigação a que eu chamo gosto torna-se ainda mais premente. Porque se nos podemos queixar que ninguém apoia e que só o que vende muitos álbuns é que tem dinheiro a sério - e toda a gente conhece os nossos tops - e que a inércia é enorme, bom, ao menos façamo-lo com a sensação de dever cumprido. Toda esta dissertação faria sentido para mim se terminasse neste parágrafo, mas o timing prende-se com o que passará para o próximo.

Os The Rising Sun Experience - dos quais já falámos no blog algumas vezes e que já foram entrevistados para o Ponto Alternativo - estão entre um grupo de 40 bandas de onde sairão 5 que vão actuar no Festival de Benicassim. A partir daqui já perceberam o mote, ide por este link e ajudem à divulgação da banda, da boa música portuguesa lá fora, e todas essas imagens bonitas. Se gostarem deles. Senão, todos amigos na mesma.

quarta-feira, outubro 28, 2009

Vic Chesnutt

Lembrei-me que a Constellation voltou a meter um álbum deste senhor cá fora. Um óptimo álbum, por sinal; está ao nível do North Star Deserter, o que diz metade. A verdade é que essa primeira colaboração, com os Silver Mt. Zion e com o Guy Picciotto dos Fugazi, que originou o primeiro álbum editado pelos canadianos, não só deu frutos, bons frutos, plantou novas árvores. At The Cut é a prova disso.

Por acaso, encontrei uma entrevista que o songwriter americano deu há um ano e que pode explicar tudo da melhor forma. Vale a pena ser vista, tal como estes dois últimos álbuns merecem ser ouvidos:

segunda-feira, outubro 19, 2009

Boredoms

Faz 10 anos daqui a aproximadamente uma semana que saiu o excelente Vision Creation Newsun dos, diria eu, geniais Boredoms. Marca mais do que suficiente para relembrar esta banda, que embora ainda oficialmente no activo já não nos dá um album full lenght de originais desde 2004 - embora ainda este ano tenha editado o EP Super Roots 10.

Quem conhece ou faz ideia por onde andou Yamantaka Eye - provavelmente a figura mais proeminente deste colectivo japonês - sabe muito possivelmente que há selo de qualidade com honras das quais poucos se podem orgulhar. Eye trabalhou com o abaixo citado John Zorn, nos Painkiller ou os enormes Naked City; a banda andou em tour com os Sonic Youth e com os Nirvana, por exemplo; a associação ao Krautrock, e mais precisamente aos Can, tem muito de acertada.

Falo de uma banda que nasceu em 1986, que passou por muitas sonoridades, e que principalmente as fundiu bem. Que se retenham os albuns Pop Tatari, Chocolate Synthesizer (ah, Acid Police...) e o mote deste post, Vision Creation Newsun.

domingo, outubro 18, 2009

Novo album de John Zorn

Saiu - confesso que não sei bem quando, mas é deste ano - o segundo album de John Zorn de 2009. Intitula-se O'o e integra-se na Music Romance Series.



Depois do elegante bocejo que dei com o Alhambra Love Songs, é uma bela notícia, porque dá o mesmo quentinho por dentro que The Dreamers, por exemplo - diga-se, da mesma Serie.

Vou então por isto a tocar e por o gato ao colo. Serei um lover boy?

sexta-feira, agosto 07, 2009

Mergulho em Paredes de Coura '09 - dia 2

29 de Julho marcou a abertura total do recinto, ou seja, o magnífico anfiteatro natural de Paredes de Coura pôde ser apreciado pelos novatos no festival minhoto ou revivido pelos conhecedores ao som de “que saudades Paredes de Coura…”.

Para mim, o dia, em termos de concertos, só começou no último ¼ do concerto levado a cabo pelos The Horrors (não vou aqui discutir as razões pelas quais vi uns concertos e outros não, e confesso que me arrependi em alguns casos, mas o que interessa agora é falar do que vi). Desconhecia por completo a banda de Inglaterra mas, do que vi, gostei essencialmente do ambiente soturno e negro que a música transmitia. No que diz respeito aos escassos minutos que presenciei, deu-me a impressão que o local mais adequado à banda britânica fosse uma sala fechada e, de preferência, tocando em nome próprio. Uma banda a descobrir.

Seguidamente entraram os Supergrass, uma das bandas para qual eu estava mais expectante nesse dia. Quase ícones da cena indie britânica, foi a primeira vez que tocaram no nosso país, em mais de 10 anos de carreira. Visitando os álbuns I Should Coco, Road To Rouen, Supergrass e Diamon Hoo Ha, deram um concerto sólido e consistente, mostrando ser uma banda rotinada e experiente. As palavras não foram muitas mas era notável o prazer com que tocavam junto ao rio Coura. Houve ainda tempo para uma visita a Sunday Morning, tema de abertura do álbum homónimo dos conhecidos Velvet Underground. Sobressaíram principalmente a faixa Pumpin’ On Your Stereo e o tema final, que fechou a actuação em grande.

Sobravam os Franz Ferdinand, a quem coube a função de fechar o segundo dia do festival. Quanto à inclusão deste nome em Paredes de Coura ’09, eu tinha as minhas dúvidas: encontram-se claramente numa fase mais experimental e o seu pico, isto é, a altura em que me aprazia mesmo muito vê-los, terá sido em 2004-2005, quando tocaram no já extinto Lisboa Soundz, juntamente com Mogwai (!). Esperava-os, portanto, com expectativas um tanto quanto baixas. A banda de Alex Kapranos abriu com The Dark Of The Matinee e o alvoroço na plateia foi instantâneo, pela primeira vez no dia (nota negativa aqui para a organização que resolveu remover a carpete de relva sintética este ano, de modo a que toda a gente pudesse respirar e comer poeira – obrigado). A parte inicial do concerto foi muito boa, cheia de energia proveniente da banda, correspondida de imediato pelo público. No entanto, como eu esperava, o ritmo rápido do concerto quebrou a meio, momento em que a banda incidiu mais no seu último álbum, Tonight: Franz Ferdinand. Seguiram-se então momentos chatos q.b., intercalados com hinos dançáveis e pujantes, muito por culpa de nomes como Take Me Out e 40ft. Apesar de não ser particular fã dos temas recentes tocados, confesso que esta foi a primeira vez que vi a banda actuar ao vivo e fiquei impressionado com a excelente qualidade do espectáculo, particularmente da energia e diversão com que se tocava no ex-palco Heineken. Chegado o encore, foi a vez de Michael e The Fallen darem o mote para o reboliço na plateia, seguidos pelo tema final, que começou como rock com uns laivos electrónicos, mas lenta e progressivamente converteu-se num momento electrónico de alta qualidade, tendo os elementos da banda deixado o palco um a um, tendo recebido cada um recebido o respectivo aplauso e ovação. E bem merecidos que foram.

segunda-feira, junho 08, 2009

Com isto das políticas...

...repararam, ou não, que o tal partido sueco chamado Piratpartiet (em tuga, Partido Pirata) elegeu um deputado para o Parlamento Europeu.

Digamos que na prática é mais importante o acto em si do que as consequências reais. E embora o partido deva integrar um de dois grupos parlamentares (ADLE ou EFA) a sua influência não deverá ser mais do que residual - caso o Tratado de Lisboa seja aprovado serão dois deputados; o que afirmei manter-se-á válido, no entanto.

Mas a afirmação mais premente disto tudo é a de que os jovens começam a mudar a sociedade - neste caso específico, a cultura. Primeiramente na Suécia, país seminal neste tipo de situações, mas julgo que rapidamente se irá espalhar esta forma de ver a política: menos ideológica e mais pragmática (veja-se o caso do Partido Cannabis por la Legalización y la Normalización em Espanha).

Acaba por ser, no fundo, um marco com a sua importância na nossa geração.

domingo, maio 10, 2009

Yakuza

Venho-vos falar de uma banda de Chicago chamada Yakuza. Com já 4 albuns cá fora, esta banda tem já 10 anos de existência. Contando com colaborações de luxo - no seu último album, Transmutations, a presença dos gigantes do jazz Hamid Drake e Michael Zerang; no seu terceiro album, Samsara, também contribuiram nomes como Troy Sanders (Mastodon) e o produtor Matt Bayles (Mastodon e Isis) - este colectivo dança entre o metal, registos jazzísticos e pesados momentos doom.



Confesso que apenas ouvi ainda os dois últimos albuns desta banda, mas considero o seu mais recente trabalho, Transmutations, uma grande, grande album. Vale a pena ouvir. Para abrir o apetite posso-vos dizer que um dos fundadores da banda se chama Bruce Lamont, saxofonista convidado no The Ritual Fires of Abandonment, dos Minsk (aaah Chicago...).

EDIT - Agora que vejo o André falou bem deste senhor uns posts atrás. Bem haja!

sábado, abril 11, 2009

Strap The Button

Esta é uma banda relativamente desconhecida do Reino Unido e que se distingue à partida por ter 11 elementos. E com instrumentos tão naturais como guitarras, bateria e baixo, mas também coisas menos óbvias como glockenspiel ou até recorrer ao circuit bending.



Falo-vos aqui principalmente de um dos seus albuns - What Kind of Rat Bastard Psychotic Would Play That Song Right Now at This Moment? - que assume uma dimensão ao longo da sua rodagem que deixa indefeso quem não contar com imensos experimentalismos e fantasias noise. O seu som parece-nos em determinadas fases do album algo de familiar, mas mal este pensamento nos assola somos absolutamente negados por rasgos poderosos e barulhentos, ou simplesmente contemplativos e com peso. Sem explorar nunca campos virgens, os Strap The Button fazem música de grande qualidade, passeando com facilidade em várias realidades musicais. Em vários géneros, se quiserem.

Confesso que este album se me revelou assombroso. Apenas com 5 faixas, admito que não seja uma audição fácil, mas é de grande satisfação quando se chega ao fim. Podem encontra-lo num Sordo ao vosso dispôr.

terça-feira, março 24, 2009

O que quer isto dizer?

O Cotonete já anunciou o novo álbum dos Isis. É caso para ficar assustado, porque a banda aparece ao lado da Amy Winehouse? Feliz, porque começa a ter cobertura mediática e até se torna mais fácil de nos presentearem com um concerto?

Bem, não sei, nem quero saber. Isis foi uma banda que me cativou lenta e suavemente. Nunca tive aquela necessidade de ouvir tudo deles - tanto que ainda não o fiz -, mas o que ouço fascina-me. São metódicos e eficazes nas músicas: exploram cada momento da música profundamente, têm peso, têm melodia, têm intensidade...

O Wavering Radiant não foge a isso. No entanto, também não é Isis puro e duro, há pormenores que se estranham (e no fim lá se entranham). O álbum ganha muito por estar muito mais comedido que o seu predecessor, sem no entanto desprezar essa característica exploratório-aventureira da banda, que disseca cada fase das suas composições com pormenores - desta vez, essa dissecação é ponderada, tem conta, peso e medida. Felizmente, também trouxeram o peso que têm vindo a perder ao longo do tempo de volta e introduziram variações muito mais esquizofrénicas e imprevisíveis para as composições; de início é fácil andar a passear por elas sem perceber bem o que se passa, mas assim que se entra no esquema do álbum... Santa Senhora da Assunção e Bairrada, que a coisa assobia e ganha uma dinâmica descomonal.

É por álbuns como o Wavering Radiant que os Isis me merecem muito respeito, sem me levarem a perder a cabeça (são uns intelectuais destas coisas, no fundo).

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Ainda há Música nos Grammys?

Ontem decorreu mais uma edição dos enfadonhos Grammys. Quando se lê os jornais e os nossos olhos dão de caras com as capas das revistas, cai-nos na ideia de imediato que os Grammys são o que aparentam ser: uma masturbação do negócio discográfico. A única relação que aqui há com a música é que o primeiro vive do segundo. Seja com macacos de imitação ou com o maior génio musical.

Podia entrar na usual crítica aos principais prémios desta coisa. Alguém acha mesmo que aquela música dos Coldplay não é igual ao riff do Satriani? É que ela ganhou o prémio de melhor música...Mas indo onde quero mesmo: ainda há Música com M grande nos Grammys?

Vejamos, há 110 categorias (!!!), muitas delas de coisas bem mais interessantes que desconhecia por completo. E quanto a nomes? Os Daft Punk ganharam dois prémios destes, sendo a sua qualidade indesmentível. Frank Zappa também. E os The Mars Volta. E o terrífico album de B.B. King também. E para quem gosta de ouvir cinema, Hans Zimmer e Peter Gabriel (este último até levou 2). E se nos centrarmos na lista de nomeados, ficamos surpreendidos com Erykah Baduh (este nem tanto) ou Nine Inch Nails ou mesmo a banda sonora do Sweeney Todd. E será Gilberto Gil um mau exemplo? Ou David Gilmour?

E agora o que me chateia: porque é que todos estes nomes ficam presos em categorias menores ou de género musical? Todos nós sabemos a resposta. Mas acaba por ser um bocado como o futebol em Portugal. Toda a gente sabe ou desconfia o que se passa, mas ninguém faz nada e cria-se um desinteresse que demora muito tempo a curar. E tudo se torna numa fachada que enriquece. Mas não quem deve. Por muito que se diga que não se quer saber disto e que ninguém liga nenhuma, não vos chateia os Coldplay ganharem, onde quer que seja, a Melhor Canção do Ano?

Notas finais: porque um melhor album ou canção Gospel e não Post-Rock ou Prog? Mas a sério, é que há um prémio para o melhor album tropical latino...
E sabiam que Barack Obama já tem no seu curriculo 2 Grammys?

sexta-feira, janeiro 16, 2009

Mitos e Música

Com algumas conversas apercebi-me de que as há mitos que condicionam os gostos e opiniões das pessoas em relação à música. Não é nada fantástico - afinal não se trata de uma letra dos DragonForce, em que um unicórnio luta contra um dragão num cenário de vulcões no meio do polo norte -, bem pelo contrário, são noções simples e quase ridículas daquilo que é a música.

Vejamos aqueles de que me lembro ou que decido considerar mitos:
1. "Os Keane são bons porque são três." Isto é o que se chama de absurdidade absurda. Considero a banda foleira, sem sal e sem pinga de originalidade; respeito gostos, podem gostar de Keane que a mim não me chateia. Agora, se me quiserem demonstrar a sua qualidade não argumentei que a sua qualidade se prende com o facto de serem três rapazes a fazerem música, que isso não convence ninguém - ou pelo menos nunca me convenceu a mim. Há mesmo quem diga que são "tão poucos e fazem tanto barulho." Então os Lobster são a melhor banda do mundo e encerra-se a questão.

2. "Se uma banda dura, é porque é boa." Ora, Scorpions, Europe, Guns 'n' Roses, Xutos e Pontapés... são o cúmulo do anacronismo! Nenhuma destas bandas pode ser boa comparada com o que se faz agora: estão fora de tempo. Ou podemos pôr esta questão em termos que levem quase toda a gente, e certamente todos os humoristas, a dar-me razão: os Delfins fizeram 25 anos.

3. "É genial porque morreu." Eu respeito o Carlos Paião, por exemplo, e consigo achar alguma piada às músicas dele - mas longe de mim elevá-lo ao estatuto de génio. Falo nele porque, agora com esta nova compilação, anda por aí na moda ouvir e curtir a cena dele (e confesso sem problemas que com um tratamento actualizado, as músicas dele ficaram com um aspecto mais aprumado e interessante, quase de apetecer levar a passaer pelo leitor de mp3). A verdade é que se ele ainda estivesse vivo, como está o José Cid que até fez um álbum incrível e de culto, seria tão desprezado como é o nosso "rainha do Rock". E por isso é que eu tenho medo dê um treco à Amy Winehouse, não vão as pessoas dizer que "ela era genial e inspirava-se na sua vida madrasta." Isto de fazer música não só é andar na coca e cantar bem. E certamente que não é preciso morrer para se ser genial.

4. "Porquê que não canta em português? Em português é melhor." Ou não. Depende de muita coisa. Mas vou pôr as coisas nestes termos: música é uma linguagem universal e tem valor próprio. As vozes são mais um instrumento, que pode ser muito importante, ou ser puramente secundário (ouço muitas bandas que não entendo patavina do que eles dizem, confesso que não me chateia minimamente). Dá-se demasiada importância à voz, se calhar por ser o instrumento que nasce connosco e com o qual estamos mais familiarizados, no entanto, é mais um entre outros belos e perfeitos tantos. Mas, uma vez mais, depende de muita coisa.

Há mais mitos, certamente. Alistei, anotei e postei estes por duas razões: antes que me esqueça (acreditem que é mais do que provável provável); assim vou fazendo um arquivo deles. Depois, um dia, escrevo um livro do género "os 100 mitos da música popular: parvoices minhas e dos outros." Esperemos que ninguém aceite tal negócio.
Ajudas são bem-vindas, claro.

quarta-feira, janeiro 07, 2009

Pureza Musical

Um pequeno artigo sobre o Guitar Hero publicado na edição online da Mojo Magazine:

"The new generation of music games are sounding a widdly-widdly death knell for rock’n’roll, argues MOJO’s Mick Farren.

SATURATION YULETIDE ADVERTISING has finally convinced me that virtual music games like Guitar Hero and Rock Band, in which participants attempt to “play” classic metal solos by following flashing light sequences on guitar-shaped plastic peripherals, pose an even greater threat to the future of rock’n’roll than Simon Cowell.

For confirmation that these games are an unpleasant victory for short-attention commercial exploitation, we need look no further than a South Park episode titled Guitar Queer-o, in which Stan and Kyle become Guitar Hero heroes, and, when Stan’s dad attempts to teach the fourth graders to actually play a real guitar, Cartman scathingly responds that “real guitars are for old people”.

What’s being exploited here is as old as rock’n’roll itself. Few of us have not, at some time in our lives, or perhaps as recently as this morning, played clandestine air guitar or posed in front of a mirror pretending to be Elvis, Jimi, Joe Strummer, or even Joe Satriani. But the global electronic game corporations who have co-opted this youthful narcissism into a competitive game of manual dexterity, with plastic reproductions of Gibsons and Fenders, are having a negative impact on music’s future. OK, so we tolerated Tom Cruise dancing around in his underwear to Bob Seger in Risky Business, but enough is, culturally speaking, enough.

Guitar Hero and Rock Band broaden the perceived gulf between performer and audience by pandering to the most juvenile extremes of rock’n’roll idol worship. Worse than that, they betray the great populist promise of rock’n’roll – which has held good from the days of The Shadows – that any garage band with a set of cheap instruments and perfunctory chops can achieve icon status if it gets the breaks and is sufficiently relentless.

Equally unpleasant is the unseemly rush by many of our current guitar “heroes” to lease their music for inclusion. Among the shameless are Aerosmith, Metallica, Motorhead, AC/DC and the Sex Pistols, while The Beatles and the Jimi Hendrix estate are reportedly ready to deal. Whether or not this is more heinous than flogging one’s songs for TV commercials is open to debate, but the basic absurdity is underscored by the song Thunderhorse by DethKlok – the fictional death metal band from the US TV cartoon show Metalocalypse – being incorporated in Guitar Hero II.
At a time when musical education in schools has become a cause célèbre, the promotion of video games that offer nothing more than a closed loop of virtual experience, devoid of creativity, does nothing to help. A spokesman for the game makers has claimed that they teach “sensitivity to rhythm, as well as develop the dexterity and independent hand usage necessary to play the instrument”, but this seems disingenuous when the games do nothing to impart the real fundamentals of music.

And just to add injury to insult, an outfit called Mad Catz in San Diego, California will retrofit a perfectly good Fender Telecaster, replacing strings, pickups and fretboard with the input controls for Rock Band.

Is nothing sacred?"


Claro que este texto do blogger Mick Farren parece-me bastante exagerado. Vejamos, nunca foi objectivo de ninguém substituir as verdadeiras guitarras por comandos com formas guitarrescas para destronar o Rock do seu lugar cultural. O objetivo de jogos como Guitar Hero e Rock Band continua a ser entreter, pura e simplesmente.
Mas algo me pode estar a escapar. Vejamos, será que a música se resume a tocar coisas dos outros, a seguir os passos ícones Pop com que nos identificamos e possuir certos símbolos de grandiosidade, como uma guitarra Fender ou Gybson? Eu ainda sou daqueles (ou se calhar já sou desses) que considera realmente prazeiroso na música o processo criativo, de fazer algo novo, o privilégio de descobrir algo que soe diferente, de ver expectativas correspondidas... Há um mundo para além da Pop, e é um mundo bonito, com grandes campos cheios de flores bem cheirosas e borboletas esvoaçantes. Qual será a reluntância em encará-lo?
Sem falar, claro, que o Guitar Hero leva boa música a pessoas que nem tinham interesse em procurá-la (assim de repente lembro-me que Black Rebel Motorcycle Club, Interpol e Tool aparecem na última edição do jogo).

Tenhamos calma; não é como se cada Guitar Hero ou Rock Band consumidos contribuam para que se comprem menos instrumentos musicais.

quinta-feira, outubro 09, 2008

Música Escrita #6

Há uns meses o Negrão falou dos Bad Plus, certo?

Eis o que a Alarm Magazine tem a dizer sobre eles e os seus míticos covers, num artigo intitulado The Top 10 Cover Songs by The Bad Plus:

"Hard-hitting jazz trio The Bad Plus knows how to pen pieces of proprietary gold. But its three members are also known for their genre-leaping renditions of rock songs, propelled by the chops of pianist Ethan Iverson, bassist Reid Anderson, and drummer David King. Here are the group’s ten best covers (in order of release).

1. Nirvana: “Smells Like Teen Spirit” (These Are the Vistas)

This cover of Nirvana’s massive hit features super-scaling runs and occasionally dissonant harmonies from Anderson in one of the final choruses. It ends brilliantly with the quick piano tinkling of Cobain’s famed bridge: “And I forget just what it takes, and yet I guess it makes me smile. I found it hard; it’s hard to find. Oh well, whatever…never mind.”

2. Aphex Twin: “Flim” (These Are the Vistas)

The original version of “Flim” caught some listeners off guard on the Come to Daddy EP, what with its pretty piano line that evoked thoughts of Willy Wonka’s “Pure Imagination.” This rendition brings Richard D. James’ IDM beats to life under the melodic synchronization of Iverson and Anderson.

3. Ornette Coleman: “Street Woman” (Give)

Coming as a rare occasion, The Bad Plus cover a fellow artist in its genre - and a revered one at that. Originally from Coleman’s 1971 album Science Fiction, “Street Woman” is bouncy, heavy, cheerful, and threatening - all while skillfully alternating rhythms.

4. Pixies: “Velouria” (Give)

If you’re not looking at the track listing to Give, you’ll have no idea that you’re hearing a Pixies song until near the two-minute mark. This version begins soft and somber, spreading out Charles Thompson’s melody over King’s distant jingling and tapping. After the early minutes of building, King breaks into a rock beat for some of Iverson’s mean improvisation.

5. Black Sabbath: “Iron Man” (Give)

After you hear The Bad Plus’ rendition of “Iron Man,” you won’t go back. Far heavier than the original, this version cracks into full gear when Iverson’s low notes thunder over his down-trickling scales, which come raining ominously from the intro. Iverson again grabs the attention over King’s heavy beats, layering together chordal harmonies of Tony Iommi’s famous progression. For the outro, the group employs a gentle quarter-time interpretation of the original’s awesome ending.

6. “(Theme From) Chariots of Fire” (Suspicious Activity?)

Anderson’s grooving bass line clashes nicely as Iverson brings in the song’s inspirational melody. A free-jazz breakdown follows before Iverson resumes the theme over wildness from the rhythm section.

7. Radiohead: “Karma Police” (Exit Music: Songs with Radio Heads)

Soft brush strokes from King lay a delicate setting for the trio’s homage to Radiohead. After some loose rhythms under the main melody, the song gets huge when the piano returns with Thom Yorke’s “for a minute there…I lost myself” vocal theme. Iverson also handles the original’s walking bass line while King plays freeform beats.

8. Rush: “Tom Sawyer” (Prog)

The poster child for radio-friendly prog rock, “Tom Sawyer” gets one of the most “authentic” replications from The Bad Plus. Iverson and Anderson trade off handling Geddy Lee’s vocals on their respective instruments, but they can’t hold out forever - like clockwork, the tune punches in an improvised break before resuming its course.

9. Burt Bacharach / Hal David: “This Guy’s in Love With You” (Prog)

Faith No More also presented a live cover of this chart-topping Herb Alpert song, and though this can’t quite compare to one with Mike Patton’s emotive vocals, it’s just as sensitive as both versions. Randomly, it closes with a quick reprise of the main rhythm from “Physical Cities,” an original Bad Plus tune that comes earlier on Prog.

10. Neil Young: “Heart of Gold”

Without a released recording of Neil Young’s classic hit, The Bad Plus saves “Heart of Gold” for concertgoers. It often begins with an abstract intro and ends with the three joining together for a harmonized a cappella chorus."

quinta-feira, setembro 04, 2008

Massive Attack @ Sagres Surf Fest 08

Sim, Sagres Surf Fest e não Super Bock Surf Fest. Seria a mesma coisa que passar a chamar ao festival de Paredes de Coura apenas Heineken, pelo que fico-me pela designação inicial e original, em ambos os casos.
Mas bom, vamos ao festival. Realizado pela segunda vez sob o nome que já me recusei a usar, este ano o SSF apresentou um cartaz semelhante ao do ano passado, sempre com uma vertente muito virada para o pessoal das ondas (não fosse o nome do festival Surf Fest), isto é, muito reggae e punk rock, tendo o reggae um peso muito maior. No entanto, o que me fez ir ao festival foram as bandas que encabeçaram os 2 dias de festival: Massive Attack e Emir Kusturica & The No Smoking Orchestra, que claramente destoavam no panorama musical apresentado na ponta algarvia, mas temo que se não fosse a sua inclusão no cartaz, o festival teria sido um flop autêntico.
Virando-me agora para o que realmente interessa, começo pelo primeiro dia do festival, que se resume a 2 palavras: Massive Attack.
A banda liderada por Robert Del Naja e Grantley Marshall apresentou-se mais uma vez em Portugal, numa altura em que prepara um novo álbum, que estará quase pronto, mas cuja data de lançamento não será apressada.
Quanto ao concerto, os MA começaram devagarinho, a um ritmo baixo e monótono, como se estivessem a aquecer. Rapidamente se fez ouvir Inertia Creeps, rapidamente saltando Del Naja na sua cadeira para presentear um dos microfones com a sua voz monocórdica sussurrada. Sendo o palco do festival pequeno, o aproveitamento não poderia ter sido melhor: Um painel de luzes por trás da banda completava o concerto de uma maneira perfeita. Risingson, Karmacoma e Teardrop foram os 3 grandes momentos, sendo Teardrop entoada pela bela voz de Stephanie Dosen, uma das novas convidadas vocais para o novo álbum. Houve ainda tempo para Harpsichord, tema do novo álbum, cantado desta vez por uma convidada que desconheço.A partir deste momento o painel de luzes ganhou particular protagonismo (visual claro). Gradualmente, frases de revolta foram passando e foi pouco tempo até que o painel se tornasse num verdadeiro placard de revolta silenciosa. Frases memoráveis de líderes mundiais, traduzidas em português, foram passadas ininterruptamente ao longo de várias músicas. De seguida, passou, em letras pequenas, uma cronologia de todos os eventos deploráveis dos quais os EUA foram responsáveis ao longo da administração de George Bush. Nunca vi eu o nome Bush repetido tantas vezes.
Aparentando estar completamente alienada do que se passava no painel, a banda continuava o concerto de alta qualidade, que culminou com um encore de luxo, em que figuraram Angel e Unfinished Sympathy, sempre com a ajuda do sempre presente Horace Andy. Os Massive Attack deram assim não só um excelente concerto, mas em segundo plano deram o seu grito silencioso de revolta sobre o estado do mundo e, particularmente, uma lição de cidadania e justiça com as frases expostas. Melhor só mesmo em nome próprio, algo que aguardo para 2009, aquando do lançamento do novo álbum.

segunda-feira, julho 07, 2008

Cult of Luna - Eternal Kingdom


Eternal Kingdom marca uma importante viragem no percurso que os Cult of Luna pareciam estar a tomar. Desde The Beyond (2003) que os trabalhos destes suecos pendiam cada vez mais para a música instrumental em que a melodia era fundamentalmente uma exploração de um riff, descurando o peso que era característico à banda. Este último é álbum não é o regresso à música muito pesada, como é uma exploração de tudo o que foi feito pelos Cult of Luna anteriormente e a procura de novas formas de compor. Eternal Kingdom é uma lufada de ar fresco, mas não deixa de soar a Cult of Luna.

A primeira grande novidade, e a mais importante, é a história por detrás do álbum. Este trabalho é baseado num diário, escrito por um homem que afogou a mulher, que a banda encontrou no local onde ensaia, um velho manicómio abandonado ao desuso, e que se chama “Tales of the Eternal Kingdom”. Através do diário, que descrevia um mundo povoado por criaturas sombrias e dominada por um homem-coruja, o autor procurou provar a sua inocência. Desta forma, Eternal Kingdom é uma audaz proposta de retrato de uma história extremamente perturbadora, que será impossível de dizer se é fidedigna ou não, mas que é indubitavelmente uma grande obra de música.
As músicas estão fortes, pesadas e imprevisíveis, de uma forma muito progressiva. Têm mudanças bruscas e bem ponderadas na melodia, são adornadas de formas muito bem conseguidas com pormenores que lhes dão uma intensidade fenomenal e, acima de tudo, têm um ambiente muito negro, digno do que se sabe das “Tales of the Eternal Kingdom”. E no que toca a essa ambiência assombrosa, os interlúdios – outra importante novidade –, de que a banda abusa, têm um papel importantíssimo, recriando uma sensação à parte das músicas e que enquadra muito melhor a audição; para ouvir e aproveitar Eternal Kingdom, é preciso ouvir todas as faixas se excepção, mesmo aparte das letras, pois elas são a ilustração da história e o segmento mais importante do processo de adaptação.
Uma vez mais, a bateria tem um papel fundamental nas músicas e resultam imensamente bem com os riffs caracterísicos e demorados dos Cult of Luna. Esta colaboração entre o compositor Johannes Persson e o baterista Thomas Hedlung não deixa de dar bons frutos, e este é fruto excelente. As baterias, dentro da sua aparente simplicidade, actuam visceralente nas músicas e são um complemento indispensável às guitarras muito bem orientadas.

Eternal Kingdom é, certamente, um dos álbuns do ano. É um trabalho intenso, bonito, pesado, muito pesado e muito bem conseguido, características correntes na obra dos Cult of Luna, mas desta vez esmeradas de uma forma imensa.

sábado, junho 14, 2008

Dixieland, dia 13

Fiz ontem a minha única visita ao festival de Jazz mais cool de Portugal - única pois, como podem ver pelas minhas postagens, tempo é uma coisa que não tenho em abundância. E posso dizer-vos: ser Dixie não é só utilizar chapéus ou suspensórios por cima de uma camisa. Mas eu estou a pensar em adquirir ambos, só para acompanhar o contágio. Falamos de algo realmente electrizante.

A noite começou com os senhores Always Drinking Marching Band, dali de Barcelona. Não marcharam, mas que estavam com uma genica descomunal, estavam. O Jazz deles quase roçava o Funk, com aquele balanço e aquela força tão dançáveis que nos fazem ficar com vontade de dobrar sistematicamente os joelhos, como se estivéssemos a dançar. E foi assim, simpaticamente, durante três músicas com muita geleia (Nota do redactor: Jam no original; há quem lhe chame improviso) à mistura. Até que o simpático catalão diz, no seu espanhol catalónico, que iam ficar mais Dixie e que para isso iriam recorrer à ajuda da nossa diva do Jazz: a extremamente simpática Maria João. E aqui começou a festa a sério. A banda se ficou Dixie, foi nas músicas que tocou e pronto. De resto, o Jazz moda Funk com uma voz verdadeiramente Soul - ainda que ao solar mostrasse que dava para cantar tudo - vingou enquanto em palco estava essa gente. Muito se dançava em palco, enquanto que o público se mostrava renitente em fazê-lo. Os samples de bateria usados pela banda davam uma dinâmica muito diferente às músicas tocadas (eu diria que a famosa onda Funk vinha daí), e a Maria João não lhes ficou nada atrás, mostrando bem o que a sua voz era capaz de fazer: do mais grave som ao mais agudo em fracções de segundo extremamente bem afinadas; gritos imaculados de deixar uma pessoa siderada; e frases com a voz bem rouca, à moda dos Blues de antigamente. Bem, foi simplesmente incrível. Não se trata só de ter uma grande voz, como se diz que esta ou aquela têm; trata-se de fazer da voz um instrumento e saber utilizá-a como tal. E aqui, bendita Maria João, a senhora sabe incrivelmente bem o que faz!
Esta festa, com as geleias bem intercaladas entre voz e metais, com muitos sorrisos e com pés sempre em movimento, quer se estivesse sentado ou não, acabaria com um muito merecido encore, ainda que eu não saiba se isso é, ou não, prática corrente num concerto Jazz. Deve ser, porque nenhum dos que repetiu a passagem pelo palco se fez rogado.

Depois, o Dixie verdadeiramente dito é que assume as rédeas. Uma simpática pausa para mudar o palco, aproveitada pelos presentes para colocar a conversa em dia, deu tempo aos Disbundixie, de Leiria, para se prepararem. Assim que começaram a tocar pode-se dizer que alguém já sabia dançar o assunto: algumas senhoras a aproveitar a onda para colocar o seu charleston em dia começaram de imediato aos pontapés no ar enquanto que os braços desempenhavam simultaneamente o papel de Travoltas num febril sábado à noite, apontando repetidamente o tecto da tenda. Os Disbundixie agradeceram, mas ficaram só estas meninas e um ou outro rapaz embriagado (de música! Embriagado de música!!) a fazer as honras da pista de dança. Os rapazes de Leiria não falharam em nada, mostrando que tinham a lição bem estudada. Esse foi, provavelmente, o pormenor menos bom da sua actuação: nada falhava e as músicas acabavam por se tornar algo previsíveis. Mas compensaram em boa disposição e comunicação.

Segundos depois dos Disbundixie terem parado, estavam o público a pensar que era outra merecida pausa para o bom cigarro e as dançarinas a ponderar descalçar os saltos altos, quando os The Juggets Jazz Band saem dos bastidores, vindos da Holanda, a marchar liderados por um simpático velho de guarda-chuva e cartola e a tocar Dixie sem amplificação alguma, apenas a que os seus pulmões conseguíam - o que, se eles não tivessem todos cabelos brancos e proeminentes barrigas de quem há muito anda pelo mundo, não seria nada de impressionante. Mas lá genica tinham eles e a partir daí foi festa dura para a frente, com o velho a pular de forma aparatosa e de sombrinha bem levantada, sempre rodeado de senhoras do Charleston (acho giro dizer "senhoras do Charleston" como se estivesse a dizer "damas do Hip Hop"). Aqui o divertimento assumiu as rédeas ao típico Jazz, em que se fica sentado esperando para se aplaudir o grande solo. Confesso que nem reparei bem nos solos, mas eles devem ter acontecido. A verdade é que estes senhores de suspensórios estavam ali para a farra, e já estava eu a abandonar o recinto de guerra quando eles andavam a marchar por onde havia espaço - e o raio do velho de guarda-chuva não parava de levantar ora uma perna, ora outra!!

A organização está, claramente, de parabéns pela forma como esta V edição do festival internacional de Dixie está a acontecer. O espaço era fantasticamente perfeito para o evento. Mas as bandas fazem o resto, sem a ajuda de ninguém.
Bem, eu ainda não sei realmente o que é ser Dixie, mas acho que vou começar a fazer exercício físico diário e rigidamente estruturado, visto que eu não aguento tal farra... como prémio talvez me dêem um reco-reco e uns suspensórios.

sábado, maio 31, 2008

O Surrealismo e a Música - Genesis

Depois do post inicial sobre esta temática ter sido escrito no dia 8 de Janeiro e o segundo no dia 23 de Fevereiro, cumpro aqui mais uma etapa da minha promessa.

A banda de Rock-Progressivo Genesis deu-nos, em 1974, um dos maiores exemplos de álbum conceptual surrealista, com o enorme The Lamb Lies Down on Broadway, que marcou também o final da ligação de Peter Gabriel com a banda. Na história escrita por Gabriel, o personagem principal é o jovem Rael, que se vê num mundo com criaturas bizarras para tentar salvar o seu irmão John. Em relatos do próprio Gabriel, muitas das situações, pormenores e locais derivam directamente dos seus sonhos, o que põe este trabalho num registo claramente surrealista, se tomarmos como certo o Sonho como uma das bases fundamentais da criação artística do Surrealismo.

Vamos então fazer uma viagem lírica através deste álbum, analisando algumas letras do álbum, começando pela faixa 1, The Lamb Lies Down on Broadway (O Cordeiro Deita-se na Broadway):

Night-time's flyers feel their pains
Drug store take down the chains
Metal motion comes in bursts
But the gas station can quench that thirst

(Os voadores da noite sentem as suas dores
As drogarias eliminam as correntes
Movimento metálico fica em chamas
Mas a bomba de gasolina pode arrefecer essa sede.)

Usando as já usuais referências à Pintura, posso referir as paisagens obscuras de James Gleeson. Voltando de novo à música, avançamos com a já aqui falada Carpet Crawlers (Rastejadores do Tapete):

Mild mannered supermen are held in kryptonite,
And the wise and foolish virgins giggle with their bodies glowing
Bright.
Through a door a harvest feast is lit by candlelight;
Its the bottom of a staircase that spirals out of sight.
The carpet crawlers heed their callers:
We've got to get in to get out (x3)

(Superhomens de modos suaves estão dominados na kryptonite,
E prudentes e tolas virgens gargalham com seus corpos ardendo de desejo.
Através de uma porta uma festa da colheita é iluminada por um candeeiro;
No inicio da escada que foge da visão em espiral.
Os rastejadores do tapete atendem quem os chama:
Nós temos que entrar para sair/escapar (x3) )

Mais uma vez uma autêntica visão apocalíptica é o que nos apodera quando dissecamos esta letra. Saltando agora para a última música do álbum, a agradável It:

It is the jigsaw. It is purple haze.
It never stays in one place, but it's not a passing phase,
It is in the singles bar, in the distance of the face
It is in between the cages, it is always in a space
It is here. It is now.

(É a serra. É a neblina púrpura.
Nunca fica num só sitio, mas não é uma fase de passagem,
Está nos bar de solteiros, na distância da cara
Está entre as jaulas, está sempre num espaço
Está aqui. Agora.)

Versos de uma cadência impressionante, encriptados com metáforas dignas do génio de Gabriel. Em toda a obra da banda, mas principalmente nesta obra-prima de Peter Gabriel, o Surrealismo encontra-se mais uma vez com a música. E de uma forma extremamente acessível.

Devido a erros com o Boomp3, não vos consigo dar música. No entanto deixo-vos o link para as duas primeiras músicas:
The Lamb Lies Down on Broadway
Carpet Crawlers

segunda-feira, maio 12, 2008

Fitacola @ Centro Cultural Artes Jah Nasce

The Alphabets


Uma tarde do Dia do Trabalhador que saiu do marasmo com um concerto integrado no Festival Santos da Casa, que se realizou no CC Artes Jah Nasce, e onde se apresentaram os The Alphabets e os cabeça-de-cartaz, a apresentar o seu primeiro álbum, Fitacola.

As duas bandas apresentam um punk-rock à imagem de uns NOFX ou de uns portugueses Tara Perdida, recuperando um estilo que parece nunca morrer, pelo menos nos meios mais underground. O concerto dos The Alphabets foi bastante mais curto, desfilando pouco mais de meia-dúzia de músicas. Esta banda, que nasceu das cinzas dos White Lie, tem um espectáculo seguro, muito centrado no seu vocalista/guitarrista (ai nomes, nomes) e que pede um pouco mais de ensaios para que a energia do palco salte cá para fora. Falta rodagem.

Fitacola

Depois entrou a banda da tarde, os Fitacola. E mostraram-nos hinos efémeros com pulsões adolescentes. E é muito disso que podemos encontrar no seu álbum, Mundo Ideal. A aposta na língua portuguesa é sempre arriscada, e os Fitacola têm alguma dificuldade na construção de uma estrutura que não soe como quem atira barro à parede. E muitas das vezes sem pegar. O que não lhes tira nenhum mérito numa ambição que pode passar por serem heróis adolescentes ou a banda sonora de cartas de amor de cadência semanal. E não lhes retira a capacidade de aquecer uma sala e de ter uma espectacular interacção com o público. E aí as letras em português funcionam a seu favor, levando o público a cantar em coro os orelhudos refrões. O maior exemplo disso será a Só uma Vez.
Nunca esquecendo o público da sua cidade natal, a banda foi muito comunicativa, agradecendo em massa, muitas das vezes por intermédio do baixista Libelinha. Não houve encore, mas também não era necessário num concerto des ta dimensão. Quando o concerto acabou todo o público presente estava satisfeito, até porque o preço do bilhete (8 euros) incluía o novo álbum.

Em suma, os Fitacola podem esperar o sucesso possível num país como Portugal, mas nunca com a ilusão de um dia figurarem nos livros. E confesso que tenho um medo secreto que aproveitem a sua visibilidade e a sua voz para venderem roupas ou perfumes. Mas isso só o tempo o dirá. Para já podem descontrair com música para o fim de semana, comprando o seu álbum de estreia, Mundo Ideal.

Peço também desculpa pelo imenso atraso desta crítica, mas a Queima das Fitas tudo traz.


Fotos Santos da Casa

quarta-feira, maio 07, 2008

Hrsta - Ghosts Will Come And Kiss Our Eyes

Hrsta, pronuncia-se 'Hursh-tah'. Surgiu pelas mãos do canadiano Mike Moya, fundador dos míticos Godspeed You! Black Emperor (projecto que abandonou depois do primeiro álbum, F# A# - facto que justifica o nome da música "Moya" no Slow Riot For New Zero Kanada EP, no qual ainda participou, e o início da música "Antennas To Heanven" do trabalho discográfico que seguiu, Lift Your Skinny Fists Like Antennas To Heaven, que é Moya a cantar um excerto de uma música sua intitulada "Baby-O") e um dos nomes comummente associados a Set Fire To Flames e Molasses. Aquilo que caracteriza as composições de Moya é o psicadelismo, que em Hrsta ganha adquire um protagonismo intenso. Hrsta é, por isso, música psicadélica com influências de muita coisa que não interessa; se tivermos de colocar este projecto numa caixinha de sapatos com uma etiqueta, que seja numa que diga "Psicadélico", perto dos Pink Floyd - mas sem os misturar, que falamos em décadas de distância, algo que torna ambas as bandas muito diferentes.

Numa primeira tentativa de deixar a sua marca, Hrsta - falemos assim - legaram um álbum muito calmo, muito lento, com alguns efeitos e muita ambiência: L'éclat du ciel était insouten (2001). Foi nestes termos que o seu caminho ficou logo marcado: com guitarras oscilantes e cheias de delay a delinearem melodias simples em acordes e com a voz de Mike Moya, algo feminina, a arrastar-se de vez em quando, num acompanhamento perfeitamente melancólico, ou com puras derivas e explorações de efeitos excessivos. O psicadélico, claro e evidente, notava-se mais pela tristeza com que as paisagens dos canadianos eram pintadas, ou no exagero dos efeitos, que nunca chegavam a ser realmente ruidosos.
A actividade da banda seria retomada somente quatro anos depois devido à actividade dos projectos paralelos de Moya. É a vez de Stem Stem in Electro (2005), um trabalho que marca a evolução da banda de uma forma vincada: abandona-se a apatia característica do primeiro trabalho, sem nunca deixar para trás o psicadélico. A fórmula é, então, juntar o que estava presente no álbum anterior, mas que se encontrava fragmentado e distribuído pelas músicas - os efeitos, a voz, o delay e a oscilação da guitarra... - e adicionar a uma presença mais notória de teclas. As músicas adquirem uma força e uma intensidade muito maior, principalmente por não estarem tão dispersas. É um marco.

Mas o grande marco do trabalho dos Hrsta foi o trabalho do ano passado, Ghosts Will Come And Kiss Our Eyes. O projecto ganhou um novo alento com ajuda de Brooke Crouser (teclista) às composições de Moya - duo que agora é a alma da banda.
Ghosts Will Come Kiss Our Eyes é tudo menos um álbum sóbrio. É alucinado, uma viagem intensa por muita coisa - é psicadélico, fortemente. A primeira música tem tudo pare ser uma ode ao funcionamento da mente humana: começam teclados longos, com uma guitarra a fazer o som de fundo, de forma aguda e continuada, numa espécie de pensamento demorado; som que é quebrado por um repentino silêncio e a invasão de um contrabaixo tocado com arco - aquele som muito grave, que causa arrepios -, surge como uma revelação, que desencadeia mais pensamentos. E a música podia continuar... mas cede para uma música característica de Hrsta, à boa maneira dos registos anteriores, mas trabalhada. E é assim todo o álbum: é Hrsta no seu melhor, sempre com os seus pormenores inconfundíveis - desde a voz à guitarra -, adornados pelas características que evidenciam os projectos mais importantes de Montreal, a relação com a música clássica - o contrabaixo tocado com arco ajudado por um piano começam a fazer parte da construção das músicas.
O álbum decorre calmamente, sempre com melodias simples e bonitas, construídas e embelezadas com a capacidade de nos fazer levitar e de libertar a nossa imaginação - sempre psicadélico. "Hechicero del Bosque" começa por se fazer ouvir dentro destes moldes, mas, depois de quase se reduzir ao silêncio, parece despertar num espasmo, com uma bateria fortemente marcada num compasso mais acelerado, uma voz gritada ao fundo, os efeitos sempre a marcar o seu território e uma linha de baixo sôfrega, tornando-se quase pesada. Uma psicose que, se tivesse distorção, atrevo-me a dizer que poderia obra dos Neurosis; é, no entanto, Hrsta, e quanto a isso é impossível ter dúvidas ou criar confusões. E a partir deste ponto (até "Holiday", que retoma a fórmula de sempre), as músicas formam ambiências perfeitamente esquizofrénicas e - perdoem-me os Neurosis - neuróticas, de provocar calafrios.

Ghosts Will Come Kiss Our Eyes representa o auge de uma fórmula prometedora e muito bem explorada por Mike Moya e Brooke Crouse. Hrsta, pela seu rico background, é uma das bandas mais suis generis da música actual, e o seu último álbum é uma obra-prima da música Psicadélica pura - como já não se ouvia desde um Dark Side Of The Moon, dos Pink Floyd, arrisco-me a dizer.

quarta-feira, abril 30, 2008

Música escrita #1

Crítica Pop: Nem Crítica Nem Pop

«E para aclarar o ar, e desocupar o espaço, algumas palavras pensadas acerca do que impensadamente eu e outros fazemos, ao escrever recados destes, com este tamanho e esta regularidade, sobre a música Pop.
De pantufas, para abrir o debate, sugiro que a crítica Pop é um exercício parasitário, trivial, inteiramente subjectivo, narcisista, volúvel, incoerente e efémero. Ou antes: é esse o máximo a que a crítica Pop pode, e deve, se for bem feita, aspirar.
E não quer isto dizer que apoie os músicos portugueses Pop, que não se cansam de chorar a crítica Pop que temos, empapando jornais e revistas com as ácidas lágrimas de não serem reconhecidos como os génios fabricantes de obras-primas que obstinadamente crêem ser. Pelo contrário: também eles, na sua maior e mais comovente parte, não possuem a noção grandiosa da sua própria trivialidade. Sabem que devem ser “cultura”, mas não sabem que cultura devem ser.

Tudo isto levou, em Portugal, a um ponto de absurdo empolamento da música Pop. Há música Pop a mais nas telefonias, música Pop a mais na televisão, música Pop a mais nos jornais, música Pop a mais nos recintos de recreação, música Pop a mais no pequeno espaço cultural português. E estão a fazer à música Pop o pior que alguma vez lhe podiam fazer: estão a levá-la a sério, a ler-lhe, no encanto instantâneo, os laivos terroristas de eternidade, e a analisá-la até à agonia. Estão a roubar-lhe o seu pequeno mas delicioso prazer: a sua futilidade cintilante, a sua natureza descartável – estão a amplificar a sua importância até rebentar o balãozinho colorido que é o Pop.
A crítica Pop jornalística (como esta) deveria espelhar essa pequenez: ser divertida, traiçoeira, bombástica, incoerente e fingidora, viver o seu escasso segundo de vida embriagada nos alcoóis gasosos da sua suprema, e apetecível, irresponsabilidade.
O inverso, a seriedade, não se justifica, senão nos pouquíssimos casos onde excepcionalmente alguma contribuição mais duradoura se fez (e se dissermos que, nos últimos cinco anos, só houve duas – os Talking Heads e os Joy Division –, a proporção ficará mais bem definida).
São apenas discos – e não há melhor encarnação do Pop do que o single – e é apenas música Pop, e os músicos Pop são apenas músicos Pop. Daqui a seis meses nada restará. Nada restará senão outros discos, outra música, outros músicos… Pop!

Já se deveria saber que, quando se diz, na crítica Pop, que determinado disco é “indispensável”, o prazo de validade dessa “indispensabilidade” raramente chega ao fim do mês. O Pop tem uma memória curta, uma esperança gigantesca e uma capacidade inusitada para o exagero: a crítica deveria reflecti-a, deveria ter a coragem e desplante de acompanhar-lhe as modas.
Não deveria ser aquilo que, em Portugal, inglória e maioritariamente tenta ser: doutoral, pedagógica, tecnicista, informada, séria, isenta, objectiva, desprendida. Sobretudo não deveria ser aquilo que os músicos portugueses desejam que seja. A crítica é sempre uma criação menor e, sendo a música Pop uma arte popular das menos importantes, a crítica deveria ser, ela também, ínfima. Nem criada de servir dos músicos ou das editoras, nem tão pouco sua professora de religião e moral.

Em Pop uma opinião vale tanto como outra. O mais que se pode pedir é que esteja bem expressa e divirto um pouco, exaspere um pouco, estimule um pouco quem a lê e – porque não confessá-lo – quem a escreve. Custa admitir a banalidade do trabalho do crítico – acaba por ser humano valorizar o nosso esforço, mas isso não quer dizer que não comece por ser errado. Só reduzidos à nossa insignificância absoluta poderemos alcançar a nossa significância relativa. É poucachinho?
É o que há…»


Miguel Esteves Cardoso in O Jornal, 2-4-82